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Infância

Durante a infância se configuram as linhas afetivas e intelectuais do indivíduo. Do modo como transcorrem os primeiros anos de uma pessoa dependem em boa medida seus êxitos e fracassos na vida profissional e nas relações que estabelece com seus semelhantes. Infância é o período etário compreendido entre o nascimento e a puberdade. Cobre, portanto, todo o desenvolvimento da personalidade. A grande variação de conduta ao longo da infância motivou a distinção em fases. Classicamente, distinguem-se a primeira infância, que compreende os dois primeiros anos de vida; a segunda infância, do terceiro ao sexto ano; e a terceira, do sétimo ano ao início da puberdade.

Os padrões de comportamento de cada idade, e também as diferenças individuais, resultam de dois processos básicos e complexos. O primeiro é o desenvolvimento e amadurecimento do potencial genético, por meio de transformações neurofisiológicas e bioquímicas. O segundo é de ordem cultural e cria condições favoráveis ou não para a explicitação do primeiro. As mudanças estruturais que se operam na integração social são possíveis graças à aprendizagem. Distinguem-se três áreas na conduta infantil: a físico-motora, a cognitiva e a pessoal-social. Área físico-motora. É a área em que se verificam os primeiros progressos da criança. O crescimento físico e o aparecimento de novas funções sensoriais se aceleram nos primeiros meses de vida, pois há predominância dos processos de maturação sobre os de aprendizagem.

O bebê, que nasce com cinqüenta centímetros em média, cresce cerca de vinte no primeiro ano. Seu peso duplica nos seis primeiros meses e quase triplica no primeiro ano. A cabeça cresce num ritmo tão acelerado que, após o primeiro ano, atinge setenta por cento das dimensões da idade adulta. Os órgãos sensoriais, de funcionamento precário por ocasião do nascimento, desenvolvem-se rapidamente. O aparelho neurovisual se desenvolve em ritmo mais lento. A capacidade percepto-motora evolui do sincretismo para comportamentos diferenciados. Progressivamente, a criança compreende que os objetos podem aparecer, desaparecer e reaparecer, e que têm existência fora de seu mundo perceptivo. A criança passa a distinguir o eu do não-eu. Segundo Jean Piaget, é quando ela supera o egocentrismo e socializa-se.

Depois dos seis anos, o crescimento progride mais lentamente e só volta a acelerar-se na puberdade. O comportamento físico-motor evolui de reações reflexas para reações voluntárias, e da coordenação dos grandes músculos para a dos pequenos. A coordenação sensório-motora permite adquirir novas habilidades que favorecem o processo de socialização. As duas grandes conquistas motoras da infância são a marcha ereta e a manipulação. A primeira permite a liberação dos membros superiores, a ampliação do campo perceptivo e a conquista do espaço físico e social. A segunda permite criar sobre a realidade. Área cognitiva. A rigor, não há diferenças sensíveis entre percepção e pensamento. À medida que o processo perceptivo se amplia, a criança ganha capacidade de estruturação e reversibilidade mental.

A imaginação dá lugar a conceitos operacionais. O conceito de tempo, inicialmente, é concreto. Relaciona-se com a ação e a regulação da ação. Isso se dá por meio da rotina de comer, excretar, dormir, levantar-se etc. A perspectiva de tempo desenvolve-se na medida em que a criança amadurece.

Área pessoal-social. As relações mãe-filho correspondem ao modelo da formação afetivo-social da criança. A atitude materna desempenha papel relevante na estruturação da dinâmica afetiva da criança e em seu desempenho. A família pode exercer influência facilitadora ou inibidora da sensibilidade social. Na medida em que facilita a iniciativa e a segurança, há reforço, enquanto a rejeição e a superproteção podem prejudicar o desenvolvimento. Teorias da infância. Entre as abordagens teóricas da infância, destacam-se a teoria mecanicista, a psicanalítica e as de Kurt Lewin, Henri Wallon e Piaget.

Teoria mecanicista. Segundo a abordagem mecanicista, as modificações da conduta que ocorrem ao longo da infância são meras alterações de amadurecimento, acrescidas da experiência. Nessa linha, alguns pesquisadores explicaram as alterações da conduta infantil como uma "espiral de desenvolvimento", ou progresso contínuo intercalado de pequenas regressões e progressões. Psicanalítica. A abordagem psicanalítica deve-se a Freud, que, embora não tenha estudado especificamente crianças, deu uma contribuição revolucionária à abordagem da conduta infantil com o conceito de libido, forma de energia psíquica com caráter erótico e dinâmico. Para a psicanálise, a conduta infantil se desenvolve especialmente por meio da evolução da libido. Durante a infância, a libido se dissocia nas fases pré-genital, narcisista (ou auto-erótica) e genital, dirigida para um objeto. Na libido narcisista, a criança não discrimina entre o interno e o externo.

O bebê considera a mãe parte de seu próprio eu. A libido objetal tem direção para a realidade externa e a imagem erótica da mãe é parte dela. As áreas de estimulação erótica, embora difusas no recém-nascido, concentram-se na mucosa oral, sendo essa região fonte de prazer para a criança no primeiro ano de vida. No segundo ano de vida, a mucosa anal é a zona de concentração libidinosa. No treinamento para controle esfincteriano, sob pressão da socialização, a reflexão interna é substituída pelo controle voluntário. A criança sente prazer em reter as fezes ou em eliminá-las. Nessa fase, a característica da conduta é a possessividade. Entre os três e os seis anos surge a fase fálica, caracterizada pela descoberta do órgão sexual (falo), que se torna fonte de prazer e de descargas de fantasias eróticas.

A curiosidade é despertada tanto para o próprio sexo quanto para o sexo oposto. Aparecem os grandes conflitos. A atração irracional pelo genitor do sexo oposto se manifesta ao lado da ambivalência em relação ao genitor do mesmo sexo. A situação conflitiva se caracteriza por impulsos eróticos, medo e culpa. Freud considerava que o complexo de Édipo, assim descrito, se resolve pela repressão dos impulsos eróticos e pela identificação com o genitor do mesmo sexo. O complexo de castração é vivido pelo menino devido ao medo de perder os órgãos genitais e, na menina, devido à inveja do pênis. A superação dos conflitos da fase fálica se dá pela estruturação de valores, conseqüência do processo de socialização. Dessa dinâmica desenvolve-se a consciência ética. A energia libidinosa sob pressão da intensa socialização sublima-se por meio de condutas socialmente aceitas. É a fase de latência.

A curiosidade sexual dá lugar a intensa curiosidade intelectual. É a última fase da pré-genitalidade e se estende até o início da adolescência. Inicialmente regulada pelo princípio do prazer, a conduta infantil passa a ser controlada pelo princípio da realidade. Kurt Lewin. Embora não rejeite a idéia de que a hereditariedade e a maturação desempenham importante papel na explicação da conduta infantil, Lewin dá importância a essa noção apenas no domínio biológico. Psicologicamente, vê as alterações da conduta infantil como conseqüências do processo de diferenciação do espaço vital, que compreende a criança e o campo de força no qual está integrada. Qualquer alteração na conduta expressa alteração do campo total. Nessa dinâmica, as regiões da esfera interpessoal crescem com o desenvolvimento.

Em sua teoria, Lewin elimina o problema dos estágios do desenvolvimento. Considera apenas o período dos três anos como altamente diferenciado e instável. A perspectiva temporal, dimensão do espaço de vida, é central na explicação do desenvolvimento. Henri Wallon. Segundo a concepção de Wallon, é por crises que se dá a adaptação progressiva da criança ao meio. Valoriza a influência do meio e a atmosfera emocional, que criam novas solicitações e mudam a conduta infantil. Para ele, a sucessão das variações do psiquismo infantil são tão diversas que cada idade constitui um todo indissolúvel e único.

Conclui que a infância é feita de contrastes e conflitos. Piaget. Enquanto a psicanálise destaca os aspectos afetivos e emocionais da infância, Piaget preocupa-se com os aspectos cognitivos. As mudanças da conduta infantil são conseqüências do processo de estabilização progressiva, passagem contínua de um estado de menor equilíbrio para outro de equilíbrio maior. O importante na explicação psicológica não é o estado de equilíbrio, mas sim o processo de equilibração. ©Encyclopaedia Britannica do Brasil Publicações Ltda.