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Psicopatologia

Dois momentos revolucionários na história da psicopatologia se relacionaram mais à atitude da sociedade em relação ao psicopata do que aos progressos intrínsecos dessa ciência. O primeiro se verificou à época de Philippe Pinel, estudioso que lutou por demonstrar a inexistência de relação entre doença mental e possessão demoníaca. O segundo ocorreu no final do século XX, quando tendências agrupadas sob a denominação genérica de antipsiquiatria passaram a recomendar o fim dos manicômios e a integração do psicopata à sociedade, mediante técnicas específicas.

Psicopatologia é a ciência que descreve as alterações da conduta provocadas por perturbações de índoles e níveis diversos. Visa à formulação de leis gerais mas não à aplicação de tratamento, procedimento que compete à psiquiatria e à psicoterapia, a partir dos dados fornecidos pela psicopatologia. Pode-se dividir a psicopatologia em duas partes: a geral e a especial. Na primeira discutem-se os conceitos básicos da disciplina e se estudam as manifestações anormais nas áreas cognitivas, afetivas e conativas, bem como no domínio da personalidade.

A psicopatologia especial se dedica aos grandes quadros em que se distribui a patologia do comportamento, desde os menos graves, como as neuroses, até os mais graves, como as psicoses. Nesse caso, a pesquisa se centraliza nos sinais que permitem estabelecer o diagnóstico.

Histórico. Dentre as etapas que a psicopatologia atravessou em sua evolução, são consideradas relevantes aquelas que tiveram lugar a partir do século XIX, a partir dos estudos de Philippe Pinel, que abordou as doenças mentais como resultado da exposição excessiva ao estresse psicológico e social, em oposição às opiniões tradicionais eivadas de misticismo e discriminação. A partir do século XIX, adotou-se uma perspectiva essencialmente anátomo-clínica, ou seja, voltada para a descrição clínica e a busca de lesões orgânicas causadoras do quadro mórbido. Nessa linha de pensamento, François-Broussais formalizou em De l'irritation et de la folie (1828; Sobre a irritação e a loucura) a proposição de Evalyn B. Bayle, referente à conexão entre as lesões meningo-encefálicas e as perturbações intelectuais típicas da demência. Fase diversa se inicia com o advento da psicanálise, na qual se consagra uma posição, adotada pelos discípulos de Freud, que descarta os fundamentos somáticos das perturbações mentais.

Outro tipo de abordagem é a do behaviorismo de John B. Watson, para quem grande parte dos quadros mórbidos ou patológicos admite interpretação em termos de aprendizagem. Daí deriva a prática de implantar controles que visam à inibição da conduta desajustada. A corrente fenomenológica se caracteriza metodologicamente pela intenção de captar o significado da relação assumida entre o paciente e o mundo. Nessa abordagem, omite-se a referência aos processos neurofisiológicos e se considera básica a noção de referência intencional, numa dimensão existencial. A dificuldade em identificar os sintomas das alterações mentais tornou necessária a delimitação dos conceitos de normalidade e anormalidades, que permitiriam definir o patológico, no qual prevalece a perspectiva estatística. Para esta, mórbido é o que se distancia do normal, definido e caracterizado pelo critério de freqüência.

O patológico é o incomum. Todavia, esse conceito de normal sofre restrições por originar-se da norma, estar impregnado de valor e funcionar como o que é bom, modelar etc. O tema foi analisado por Georges Canguilhem, em Essai sur quelques problèmes concernant le normal et le pathologique (1943; Ensaio sobre alguns problemas concernentes ao normal e ao patológico). A tentativa de caracterizar ou definir o patológico ou mórbido pode-se resumir em três aspectos: o da integração, o da autonomia e o da adaptação. O mórbido, no primeiro caso, configura-se como o que se revela desintegrado. A segunda perspectiva refere a perda de autonomia peculiar ao estado sadio, sendo a autonomia vista como a capacidade do indivíduo de se revelar como tal, de se conduzir de acordo consigo mesmo, conscientemente e independentemente dos outros. A adaptação abrange situações designadas pelos conceitos de inadaptação (ausência de adaptação) e desadaptação (perda de uma adaptação já consumada).

A descoberta de psicofármacos e a análise de tipos de personalidade complexos, estudados do ponto de vista da psicologia do processamento da informação e da neurociência, abrem caminhos para a pesquisa dos processos psicopatológicos e a descoberta de novas terapias. A abertura da psiquiatria tradicional em relação à psicologia científica possibilitou a participação de profissionais de psicologia clínica no diagnóstico e tratamento das doenças mentais.

Classificação das doenças mentais. Existem vários sistemas de classificação das psicopatologias, que são periodicamente revistos. Cada um deles atende a distintos sistemas fenomenológicos e a diversas escolas ou tendências teóricas. A classificação mais difundida é a proposta pela Associação Psiquiátrica Americana. Outras de influência são a britânica e a da Organização Mundial de Saúde. A maioria dessas classificações coincide em distinguir alterações provocadas por deterioração das funções cerebrais e alterações psicogênicas. As de origem cerebral podem ser agudas -- provocadas por infecções, intoxicações, traumatismos, perturbações circulatórias, perturbações do metabolismo etc. -- ou crônicas, causadas por fatores constitucionais inatos ou de causas semelhantes às que provocam as perturbações agudas.

Também se incluem nesse grupo as alterações provocadas por tumores cerebrais e as oligofrenias ou deficiências mentais. Dentro das alterações psicogênicas, costuma-se distinguir entre alterações psicóticas (psicose maníaco-depressiva, esquizofrenia, paranóia), viscerais, psiconeuróticas (fobias, estados de ansiedade etc.) alterações prolongadas da personalidade (compulsão, inadaptação, vício e dependências de drogas) e alterações transitórias (como a provocada pelo estresse). ©Encyclopaedia Britannica do Brasil Publicações Ltda.